domingo, 26 de outubro de 2008

[ Triste Bahia ]




Eu sou baiano, soteropolitano e amo minha cidade. Mas infelizmente seus cidadãos estão destruindo-a. Alguns amigos se surpreendem quando digo, depois de 8 anos em Brasília, que não sinto falta de nada, a não ser, claro, da minha família e dos jogos do Vitória no Barradão. O que me entristece por lá é o pensamento medíocre da maioria da população, seja pobre, seja rica, seja classe média.

Há alguns meses o professor Antônio Natalino Dantas, coordenador do curso de medicina da UFBA, chamou todos os baianos de burro. Disse que o baiano tem QI baixo e que só toca berimbau por que tem uma corda. Natalino estava num péssimo dia, foi uma declaração infeliz, não levando em consideração a herança cultural literária, poética e musical de nosso Estado. Mas sem exageros, ele tinha um pouco de razão.

Vamos tomar por base o Carnaval de Salvador. Na década de 1980 o carnaval de rua era do povo pobre. Chique mesmo era participar das festas de Salão realizados pelos Clubes, como o do Clube Bahiano de Tênis, o mais concorrido da cidade. Com o tempo, essas festas foram se tornando mais caras, e a classe média passou a ser impedida de participar, migrando junto com o povo, para às ruas.

No final da década de 80, vendo no turismo uma forte fonte de receitas, o então governador ACM criou um projeto cultural baseada na valorização das raízes que teve seus altos (a inclusão da cultura negra como grade do currículo escolar e a restauração e revitalização do Pelourinho) e seus baixos (reformados, os espaços que antes eram do povo, passou a ser da elite e dos turistas). Entre esses baixos veio a transformação do Carnaval de rua numa festa nacionalmente conhecida, graças ao contrato de exclusividade com a BAND e do patrocínio da Artartica e Brahma, as duas maiores cervejarias do país.

Mas onde entra a burrice do povo? Sabem quanto custa brincar no carnaval de Salvador? Se você quiser participar de todos os blocos, ouvir todos os artistas nacionalmente conhecidos, vai desembolsar cerca de R$ 3.000,00! No bloco do Asa de Águia, o abada (que lhe dá direito a dançar dentro do bloco por no máximo 4 horas) custa R$ 900,00. O bloco Camaleão tem a segunda fantasia mais cara, são R$ 840,00 para ouvir o Chiclete com Banana. No da Ivete Sangalo são apenas R$ 650,00 enquanto sua genérica, Claudia Leite, cobra R$ 300,00.

Levando em consideração que muitos desse artistas não fazem mais tanto sucesso em Salvador (o Chiclete com Banana faz “shows” onde costumam cobrar R$ 10,00 a entrada), o objetivo óbvio é atrair os turistas, sobretudo os brasilienses e paulistas, que adoram a Axé Music. No entanto, no afã de fazer parte da festa nacional, muitos soteropolitanos entram na onda e pagam o preço para brincar no Carnaval.

Muitos desses gastam todo o salário para participar de uma festa que dura apenas sete dias e passam fome o resto do ano. Ninguém paga nem 10% disso para comprar um livro, estudar melhor ou procurar se especializar. A Bahia tem um dos maiores pólos petroquímico da América Latina – Camaçari – mas todos possuem supervisores, técnicos e especialistas de outros Estados, porque não existem em Salvador pessoas para estas demandas. O pobre e negro de Salvador não pense em cursas uma faculdade, mas já nasce querendo montar uma banda de pagode, porque supostamente dá mais dinheiro e você não precisa estudar.

Talvez por isso, não me sinta lisonjeado quando descubro que “Ò pai ó” vai virar série de televisão da Globo. Vem aí mais uma visão estereotipada da minha cidade que não representa a maioria. Triste Bahia!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

TODOS COMENTÁRIOS SÃO MODERADOS. (1) Não tiro dúvidas sobre doutrinas cristãs (2) Não permito ofensas, palavrões ou termos vulgares. (3) Não é permitido proselitismo, apostasia, contudo, aceitamos bons argumentos.