terça-feira, 14 de outubro de 2025

E NO TERCEIRO DIA, O BLOGGER RESUSCITOU

Na verdade, na tericeira década né?

Não sei se, em pleno 2026, as pessoas ainda dedicam tempo para ler um blog, mas eu tenho um motivo especial para fazer isso. Hoje faz exatamente vinte anos desde que fui desassociado. Fui por decisão minha. Já estava inativo desde 2013 e, na época, procurei o corpo de anciãos — mais para atender ao pedido da minha mãe do que por convicção própria. Ela queria que eu confessasse meus erros e voltasse “limpo”, “alvo mais que a neve”, como dizia com ternura, citando o Salmo 51:7.

Mas, assim como eu, minha mãe era muito ingênua. 
Ela acreditava de todo o coração que podia confiar em homens que diziam servir a Deus. Como os anciãos. Eu também acreditei nisso por um tempo. Só que, com o passar dos anos, fui percebendo o quanto é perigoso depositar nossa fé em seres humanos. Não que eu tenha algo contra a todo e qualquer ancião. Mas vivi tempo suficiente, sendo quase escolhido pra servir como ancião também, pra saber como algumas coisas funcionam. Ainda bem que as Congregações são comandadas por um corpo, se fosse só um ancião, as coisas seriam mais feias do que eram na minha época. 
O profeta Jeremias já havia nos alertado sobre isso há séculos, quando disse que não deveríamos confiar no homem terreno. Eu só não imaginava que essa advertência também se aplicava àqueles que, em teoria, deveriam refletir o amor e a justiça de Jeová.
Hoje, olhando para trás, entendo que minha decisão não foi apenas um afastamento religioso — foi um despertar. Um processo doloroso, mas necessário, para entender que a fé não pode ser terceirizada, nem medida pela aprovação de um grupo. Ela é algo íntimo, entre a alma e Deus.
Minhas irmãs continuam servindo fielmente a Jeová. Minha sobrinha cresceu — já está até namorando.
Com as recentes mudanças nas orientações sobre como tratar os desassociados, ou melhor, agora chamados de removidos da congregação (um artifício jurídico para evitar implicações legais, mas que, no fim, significa exatamente a mesma coisa), algumas coisas voltaram à minha memória.
Meu irmão também continua firme na organização, mas estamos bastante afastados. Não sei qual é a visão dele hoje; às vezes, percebo nele um certo ar de arrogância espiritual. O fato é que, antes, já nos desentendíamos por causa da forma como ele obrigava minha mãe a me tratar como desassociado — inclusive a ponto de proibi-la de me hospedar em sua casa quando eu ia a Salvador. Depois da morte dela, nosso distanciamento se tornou definitivo.
Mas, justiça seja feita: quando tive um princípio de infarto em 2022 (sim, eu tive… vacinas!?), ele me deu algum apoio — algo que não recebi de outros amigos, além das costumeiras palavras bonitas nas redes sociais.
No fim das contas, é assim: ele fica na dele, eu fico na minha. Mas, se um dia um de nós precisar do outro, tenho certeza de que a ajuda virá.
Não vou remoer as coisas que me fizeram afastar das Testemunhas de Jeová. Fui afastado por pessoas que não se preocuparam em ser “pedra de tropeço” no meu caminho — e, pior, quando comecei a me distanciar, em vez de ajuda, o que recebi foram críticas. As pessoas me viram afundar e não estenderam a mão.
Por outro lado, não quero me vitimizar. Meu coração já estava consumido pelo ódio de me sentir traído e enganado. Naquele momento, nada que dissessem seria capaz de me fazer mudar a decisão de casar com uma pessoa de fora da organização.
Nesse período, muita coisa aconteceu comigo. Me formei em Teologia Sistemática e, depois, concluí dois cursos sobre História Hebraica e História da Igreja Primitiva. Esses estudos abriram minha mente para muitas coisas que são ensinadas. Inclusive, descobri — mesmo sem que queiram ser mencionadas — que as Testemunhas de Jeová compartilham algumas ideias do grupo ariano da época dos Patrísticos. Pesquisar sobre Ário e como ele foi derrotado pela teologia da Trindade de Orígenes é, para mim, um estudo pessoal fascinante. Vocês deviam fazê-lo.
Hoje, me considero cristão. Continuo me dirigindo estritamente a Jeová, o único Deus Todo-Poderoso, em minhas orações, por intermédio de seu Filho, Jesus. Se Ele me ouve — e eu sei que sim — ou não, não cabe a você decidir. Não defendo "bandeira" de igreja e nem qualquer organização religiosa, pois entendo que a verdadeira religião estabelecida por Jeová e por Cristo não está em um “templo feito por mãos” (Jeremias 29:14; Atos 17:24).
No entanto, admiro alguns pregadores, gosto de alguns debates e me permito congregar em algumas igrejas onde encontro pessoas boas, dispostas a serem minhas amigas e a fazer o bem. Afinal, só quem gosta de ser maltratado é quem tem problemas psicológicos ou falta de autoestima.
Bem... é sobre isso. Acho que vou aproveitar pra ler as coisas que eu escrevia há 20 anos atrás, verificar se ainda mantenho as mesmas opiniões, se algumas outras mudaram, enfim, vai ser uma boa leitura.

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