quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

 PLURIBUS E O PARAÍSO




Se você é um seriemaníaco, com certeza já deve conhecer "Plúribus", nova série da Apple+ (mais uma, né?). Se não conhece, vou explicar em poucas palavras a premissa dela:

A história gira em torno de Carol, uma escritora em crise com o próprio sucesso — apesar de vender bem, ela acha sua literatura superficial e pouco interessante. Esse conflito já marca bem sua personalidade: Carol soa ingrata, crítica, insatisfeita e, ou seja, bem chata.

Tudo muda quando um vírus alienígena atinge a Terra e transforma grande parte da população em uma espécie de mente coletiva, totalmente voltada para o bem comum. Essa comunidade alienígena não mente, não mata e não deseja mal a ninguém - nem mesmo aos seus únicos inimigos: as 13 pessoas que não foram infectadas, entre elas Carol. E é justamente ela quem decide que precisa encontrar um meio de deter essa entidade coletiva… mesmo que eles não representem o tipo de ameaça que normalmente se espera de uma invasão alienígena. A série ainda está no meio... e ainda tem muitas teorias conspiratórias para se chegar até o fim dela. 

Mas o que Plúribus tem a ver com o Paraíso

Certa vez, numa daquelas tardes preguiçosas em que eu sentava com minha mãe só pra jogar conversa fora, perguntei como ela imaginava o Paraíso.

Ela respondeu: "Um lugar de paz, de união, sem ódio, sem rancor, sem violência… onde todos teriam um único objetivo: adorar a Deus e viver para Ele."

Então eu retruquei: "Mas mãe… e se alguém fizer algo errado? E se cometer um deslize?"

Ela disse que isso simplesmente não aconteceria, porque todos teriam esse único propósito: adorar a Deus e viver felizes no Paraíso. Eu sei que pequei, mas não consegui evitar pensar: 

"Nossa… que vida mais chata."


PARAÍSO DE TODOS

O pior é que agora assistindo a série, vendo os alienígenas todos bonzinhos, se esforçando em serem bem vistos e administrando a humanidade sem guerra, sem ódio, sem mentir, sem rancor ou brigas, fico me perguntando se será que esse não seria a melhor solução? Porque, intencionalmente, ou não, a protagonista é justamente a pessoa que mais traz sentimentos antológicos, justamente por causa de sua antipatia. Nem sempre vemos ela como heroína da série justamente porque os "plúribus" são felizes, bons e extremamente bondosos, o que acaba nos conquistando.

E aí começo a perceber que a série cutuca uma ferida que a gente raramente admite, de que talvez a gente diga que quer um mundo perfeito, mas detestaria viver nele. O tal Paraíso prometido seria um evento de chatisse a vida toda. A perfeição cansaria, sufocaria, tiraria a graça - porque, no fundo, o que nos move é justamente o conflito, o tropeço, a liberdade de errar. E Carol, com toda sua rabugice, vira quase um espelho distorcido da humanidade porque no fundo somos um pouco como ela, ou seja, a gente prefere viver no caos, mesmo que esse caos seja nosso, do que na perfeição manipulada por outros.

Porque, vendo "Plúribus", percebo que existe algo estranho nesse conceito de perfeição contínua. Se não existe erro, arrependimento, superação, conflito - sobra o quê? Rotina? Um looping eterno de “tudo está bem”? Será que nós, humanos, fomos feitos para uma vida sem contrastes? Ou é justamente a imperfeição que dá cor, textura, profundidade ao que vivemos?

Enquanto os “plúribos” vivem em harmonia, a série deixa uma pulga atrás da orelha: será que a paz absoluta só existe ao custo da autonomia? Será que viver sem dor também significa viver sem escolha? Meu Deus! Vou ficar louco!

Minha mãe talvez respondesse que isso é apostasia demais pra uma tarde de preguiça e mandaria eu orar mais pra Jeová me dar juízo. Mas eu continuo pensando que, se o Paraíso fosse uma versão divina de Plúribus, então talvez eu seja mais parecido com a Carol do que gostaria. Mesmo atualmente não gostando nada dela (calma, ainda estou no episódio 5).

E é por isso que assistir à série tem sido tão perturbador e fascinante ao mesmo tempo. Ela brinca com esse desconforto moral que a gente evita olhar, como se dissesse: “Você tem certeza de que quer mesmo o mundo perfeito que vive pedindo?” E enquanto a história avança, começo a suspeitar que o verdadeiro conflito não é entre humanos e alienígenas - é entre a nossa fantasia de perfeição e o caos que faz a vida valer a pena.

E isso mexe comigo, porque não quero duvidar daquilo que aprendi, mas também não consigo ignorar o desconforto. Será que o Paraíso exige que deixemos de ser quem somos hoje? Será que nossa humanidade (com falhas, emoções intensas, paixões, escolhas tortas)  teria lugar num mundo onde nada sai do trilho? Onde tudo é perfeitamente controlado para dar certo?

"Plúribus" me faz pensar que talvez a paz absoluta não seja o problema… talvez o problema seja imaginar que, para alcançá-la, precisaríamos abrir mão do que nos torna únicos. E, entre ser perfeito e ser humano, ainda não sei qual escolha faz mais sentido. Talvez o Paraíso não seja chato - talvez eu só não tenha entendido ainda como seria viver num mundo onde a perfeição não elimina a personalidade. Ou talvez… a graça esteja exatamente nessa tensão que nem a ficção, nem a fé, conseguem resolver por completo.


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