sábado, 27 de janeiro de 2007

[ Figura Paterna ]

Ontem fui cortar o cabelo. Detesto cortar cabelo, mas nem sempre foi assim. Toda vez que vou rapá a cabeleira eu me lembro de meu pai. É uma das lembranças de infância que está guardado na memória. Meus pais moravam na Bairro Reis, em Salvador, e eu devia ter uns 7 a 8 anos. Toda vez que meu pai ia cortar o cabelo me levava, e naquela época, além do bar, era comum todos os homens baixarem na porta de uma barbearia para ficar jogando conversa fora e assim era uma diversão para mim, porque me sentia homem no meio de uma conversa de homens.

Tinha duas coisas que ficaram bem gravadas na minha mente: a possibilidade de cortarem minha orelha e o time do Vitória. Toda vez que ia cortar o cabelo, na hora de aparar as costeletas, meu pai dizia fica quieto, para não arrancar as orelhas. Eu ficava quietinho, porque a possibilidade de arrancar meus abanos era horrível. Até hoje quando o barbeiro está aparando as costeletas, é como se estivesse lembrando meu pai me alertando.

Com o Vitória era outra situação engraçada, pois eu não entendia bulhufas de futebol e nem sobre times de futebol. A única coisa que eu entendia é que as pessoas ficavam me ridicularizando quando meu pai me vestia com a camisa do Vitória e me ensinava a dizer frases prontas contra um time chamado Bahia. Como eu era criança, acho que as pessoas gostavam, porque quanto mais eu falava mal do Bahia, mais alguns riam. Assim, toda vez que vou na barbearia, me lembro de futebol, disputas de times, etc..

Mas talvez, de todas, a maior imagem que possuo de meu pai é quando vou fazer um discurso. Quando eu e minha familia começou a estudar, eu tinha 13 anos e meu pai se tornou um opositor inicialmente, porque ele não queria que seu filho se tornasse um veadinho. (eu não sei de onde meu pai tirou isso!!). Com o tempo, à medida que meus colegas se metiam em confusões, meninas engravidando, e eu e minhas irmãs sendo diferentes, ele foi percebendo que estudar a bíblia era bom. Segundo um colega de meu pai, ele mudou depois que ao fazer críticas, uma pessoa disse que "a familia dele era um exemplo" e que ao contrário de outros, "eu era um bom menino".

Meu pai se acalmou e deixou as coisas rolarem até descobrir que tinha câncer no fígado. Na verdade ele escondeu da gente até se agravar e ser levado ao hospital. Na semana que eu iria fazer meu segundo discurso nº 2, meu pai ficou entusiasmado. Minha mãe já tinha falado para ele do meu primeiro discurso e ele ficou empolgado com o fato do filho dele ser inteligente o bastante para fazer um discurso numa "igreja". Meu pai só sabia ler e escrever. Segundo minha mãe, quando ele soube que eu ia fazer um discurso para um monte de gente assistir, ele ficou orgulhoso e disse que queria assistir. Lamentavelmente, no dia do meu discurso meu pai piorou e foi internado na UTI. Três dias depois ele viria morrer.

Eu queria muito que meu pai tivesse visto um discurso meu. Toda vez que subo numa tribuna, tendo imaginar meu pai me assistindo lá de baixo. Bem, infelizmente, meu pai não se tornou Testemunha de Jeová, mas se assim Jeová desejar, acredito que ele terá muitas oportunidades de assistir discursos meus no novo mundo. Mas aí, vai depender de mim.

3 comentários:

  1. Moço,moço...
    Eis uma SAUDADE que dói...
    Acho q não existe esse negócio de q o tempo é o melhor remédio, pois ele passa e a sdd aumenta e e´cruel não ver mais o sorriso de certo alguém qdo voltamos pra ksa
    Mas...ainda bem que existe esta esperança de que muito em breve poderemos rever tantas pessoas amadas.
    "Depende de nós!"
    T cuida
    S.C
    P.S: Sem qrer vc me fez chorar hj com seu post.

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  2. AL, seu pai ainda terá muito que se orgulhar da família no Novo Mundo...por enquanto, é hora de todos nós continuarmos fazendo a nossa parte para estarmos lá para receber os que voltarão.

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  3. poxa meu irmão, como é doloroso perdemos alguem na morte, ouvimos muito a respeito( nas reuniões, publicações etc).mas sabermos quão ruim, quando sentimos na pele.nos habilita ajudar outros na mesma situação.Foi legal seu post e bem triste também .mostra sua pessoa intima e como devemos valorizar irmaõs como vc na org.!
    sousa

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