sexta-feira, 23 de julho de 2010

SAUDADE


"por teres muitíssima saudade da casa de teu pai"
- Gênesis 31:30



É incrível como Jeová nos criou com uma capacidade grande de sentir emoções. O nosso sistema auditivo foi criado de uma forma maravilhosa por nosso Deus, que não só capaz de ouvir a música, mas conecta-a ao nosso cérebro nos fazendo ter emoções, nos levar de volta num túnel do tempo, e relembrar sentimentos esquecidos.

Há cerca de 21 anos meu pai faleceu por complicações no fígado. Complicações entenda uma cirrose que o fez definhar e o matou aos poucos. Cerca de 8 longos meses de sofrimento para minha mãe, para mim e meus 3 irmãos. Mas não quero falar necessariamente disso. Meu pai era caminhoneiro. Trabalhava para uma indústria de chocolate e cortava todas as semanas as estradas que ligavam Salvador ao sul da Bahia. De vez em quando meu pai me levava com ele quando ainda era um garoto: 6, 7 ou 8 anos. Como todo caminhoneiro, meu pai gostava de música sertanejas. Mas sertanejas de verdade, aquelas que hoje muitos chamam de sertanejo raiz. Me lembro do rádio do caminhão tocando essas músicas na estrada ou nas rodas de caminhoneiro nos postos-dormitório o qual parávamos para descansar.

Nunca fui muito fã de música sertaneja. Meu pai era muito fã de Chitãozinho e Chororó, Tonico e Tinoco, Milionário e José Rico, e por sinal, foram desses últimos, o motivo deste tópico de hoje. O motivo que me fez chorar copiosamente ao ponto de deixar minha esposa assustada, sem saber o que estava acontecendo. Foi um choro de saudade, um pouco de tristeza, mas de lembrar de meu pai dessa forma, pois mesmo que queiramos, a morte passa e a lembrança fica, mas a dor vai se despedaçando com o tempo.

Tinha uma música que meu pai amava demais, mas como eu nunca fui ligado em música sertaneja, não me lembrava dela. Pois se lembrasse, é óbvio que aqui na ilha do DF, cercado de goianos e mineiros por todos os lados, eu acabaria sabendo dela e copiado. Até porque hoje, descobri, que ela é muito popular ainda para quem gosta de música sertaneja das antigas.

Pois bem, estava eu defronte do meu computador, distraído, quando de repente passa em frente de minha casa um carro de som de um político qualquer tocando justamente a música que me fez voltar 30 anos atrás, direto na boleia do caminhão que meu pai dirigia. Na mesma hora, levantei, sai correndo e parei o carro perguntando ao motoristas, que meio assustado, sem entender, me explicou que se chamada "Solidão", de Milionário e José Rico. Na mesma hora entrei em casa, procurei no meu Ares e achei várias versões, mas queria ouvir a original. Foi o bastante para lembrar do meu velho pai, e chorar como nunca mais havia chorando antes. Nem quando vendo minha mãe em prantos, e tentando não derramar uma lágrima por ser o novo "homem da casa", eu o vi pela última vez antes ser enterrado no Campo Santo, em Salvador.


Um comentário:

  1. Esse seu Post me emocionou...
    Apesar de ter ainda os meus pais em vida, às vezes sofro por antecipaçao pensando um dia na perda deles.
    Posso imaginar a sua dor.
    E é mesmo assim, quando a saudade nao cabe no peito, transborda nos olhos...
    Espero que voce possa reve-lo no novo mundo.
    Um grande abraço.

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